Estados Unidos e União Europeia anunciaram ontem que vão negociar um acordo de livre comércio. Se for bem-sucedida, a iniciativa pode estabelecer a maior zona comercial do planeta, respondendo por metade da produção e 30% das trocas de bens e serviços globais. A notícia representa uma enorme pressão para os grandes países emergentes, como China e Brasil.
A reportagem é de Raquel Landim e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 14-02-2013.
As
conversas entre americanos e europeus devem começar em junho com o
ambicioso prazo de serem concluídas em dois anos, quando termina o
mandato da atual Comissão Europeia. O comunicado conjunto sobre as
negociações foi divulgado após o presidente dos EUA, Barack Obama, mencionar o assunto em seu discurso à nação.
"Comércio
justo e livre pelo Atlântico significa milhões de bons empregos para os
americanos", disse Obama. Em entrevista em Bruxelas, o presidente da
Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, disse que o acordo representa uma "mudança no jogo" do comércio global.
A iniciativa também significa a "última pá de cal" na Rodada Doha,
da Organização Mundial de Comércio (OMC). "Americanos e europeus querem
passar a mensagem de que confiam no comércio para superar a crise, mas
colocaram pressão na OMC e nos emergentes", disse Rubens Ricupero, ex-secretário geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
Estados
Unidos e União Europeia já são mercados relativamente abertos. A
alíquota de importação média está em 3,5% nos EUA e 5,2% na UE. O grande
desafio do acordo é estabelecer regras comuns para temas tão diversos,
mas que interferem diretamente no comércio, quanto meio ambiente,
padrões de segurança ou produção cultural.
A tarefa é muito
complicada. Segundo experientes negociadores ouvidos pelo Estado, EUA e
UE têm "filosofias" diferentes. Os europeus utilizam o princípio da
precaução, em que um alimento transgênico, por exemplo, não é liberado
enquanto não se prove que não há riscos, enquanto os americanos
trabalham com "riscos aceitáveis" e aprovam produtos se os benefícios
são maiores que as perdas.
Padrões globais
"Se conseguirmos estabelecer padrões com os Estados Unidos, eles têm
chance de se tornarem padrões globais. Isso é da maior importância para
nossas indústrias", disse Karel De Gutch, comissário de Comércio da UE. E é nesse tema que está a maior preocupação dos países como o Brasil.
Fontes
do Itamaraty afirmam que a estratégia de EUA e UE é colocar pressão na
China. "Americanos e europeus vão criar padrões para a fabricação de
aviões ou qualquer outro produto e os chineses estarão sempre um passo
atrás", disse um diplomata. Os EUA também estão negociando um parceria
de comércio e investimentos com países do Pacífico, menos a China.
O
Brasil também é atingido, pois teria de simplesmente aceitar novas
regras que hoje são discutidas em fóruns multilaterais. A situação do
País é ainda mais delicada, porque não fechou acordos bilaterais nos
últimos anos. "Num mundo que se regionaliza, o Brasil tem poucos
acordos", avaliou Sérgio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento.
Não
é a primeira vez que EUA e UE tentam selar um acordo de livre comércio.
Desde o surgimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan),
em 1949, eles falam em criar algo equivalente no comércio. A diferença é
que, agora, a crise pode impulsionar as negociações.
*Carta Capital
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